Chamada de Trabalhos – Revista Soletras

Chamada para publicação Revista Soletras, n. 38, julho- dezembro de 2019 (Qualis B1)
Organizadores: Luiz Manoel da Silva Oliveira (UFSJ), Maria Aparecida Rodrigues Fontes (Università degli Studi di Padova) e Shirley de Souza Gomes Carreira (UERJ)
Dossiê: Poéticas em trânsito: espaços, deslocamentos e temporalidades múltiplas
A relação eu/outro constitui um amplo campo de investigação, seja na perspectiva da alteridade como diferença ou no âmbito das representações da diversidade. Contemporaneamente, as discussões sobre etnia, diáspora, e identidade cultural, além de propiciarem condições de enfrentamento das diferentes formas de opressão e exclusão, subalternidades e assimetrias sociais, acabam também por problematizar as representações do indivíduo, do espaço e do tempo na literatura.
Bertrand Westphal (2007), no ensaio La Géocritique. Réel, fiction, espace (2007), mostra que a tentativa de separar o real da ficção, enquanto espaço físico, é pura ficção uma vez que a produção de sentido é correlata às atividades da imaginação e representação estética. Hoje, o trabalho dos escritores em “trânsito” é de conectar as diferentes culturas e de criar uma continuidade entre os espaços que são atravessados, uma espécie de continuum entre exterior e interior (o espaço narrado e o espaço social vivido), como a dobra da fita de Möbius. É deste lugar de valor cultural híbrido e de dimensões temporais diversas, que eles elaboram seus projetos históricos e literários, demonstrando que a cultura como estratégia de sobrevivência é transnacional e traduzível. Transnacional porque, conforme Homi Bhabha (2001), os discursos pós-coloniais estavam enraizados nas histórias específicas do deslocamento cultural. Assim, o sujeito em diáspora cria uma forma de espaço “monádico-nomádico” que é um espaço topológico e não topográfico. Estar em movimento delineia também um espaço-limite, onde o interior e o exterior se invertem. Este espaço da torção, da dobra, e da nomadologia é também de tradução de uma língua, étnica e literariamente falando, que se torna um órgão móvel e nômade.
Nesse sentido, também vale evocar alguns pensamentos de Eva Hoffman (1999) em seu ensaio “The New Nomads”, quando ela afirma que embora o “exílio” possa ser tomado friamente como um conceito teórico, universal, não podemos desconsiderar uma rede complexa de prismas que subjazem a essa ideia, uma vez que as diferentes circunstâncias determinantes das migrações do indivíduo estão eivadas de implicações políticas, culturais e sociais que terão enormes impactos práticos e psicológicos na sua vida. Contudo, como essa questão é muito complexa, Hoffman afirma também que, pelo fato de a globalização estar determinando trocas e interações culturais com uma aceleração e dinamismo nunca antes vistos, as noções de exílio e terra natal (“home”) têm sido o foco constante das discussões teóricas contemporâneas. Uma consequência disso é que “nós sabemos que hoje vivemos em uma aldeia global, embora essa aldeia seja de fato virtual – uma aldeia dependente não de localização ou de raízes fincadas no solo, mas daquilo que os teóricos chamam de desterritorialização – ou seja, o afastamento do conhecimento, das ações, das informações e da identidade de algum lugar físico específico. Em suma, tornamo-nos menos ligados aos espaços e talvez também mais despegados da noção de tempo” (HOFFMAN, 1999, p. 44). Tanto o narrador em trânsito, como os protagonistas dessa poética da diversidade, ao transitar em novos ambientes, se traduzem no espaço no qual se deslocam e se desdobram. Contudo, Bhabha (2001) observa que o tema da diferença cultural e da etnia, ao habitar os interstícios e embora seja um elemento de resistência no processo de transformação social, também é um problema porque ocupa o espaço liminar da tradução, que muitas vezes não é em si traduzível.
Um dos nossos objetivos, portanto, é analisar as relações entre espaço e escritura, considerando as temporalidades diferentes e partindo do pressuposto de que não existe hoje uma linha evidente que separe os espaços imaginados e imateriais, presentes nas obras literárias de autores contemporâneos, sobretudo daqueles em trânsito, porque o espaço na literatura se abre a interrogações que transcendem a análise das relações topográficas. Trata-se, sobretudo, de uma narrativa que conecta o interno e o externo, e uma literatura “em trânsito” que traça linhas itinerantes, mas não indica seus confins, e que mantém relação com outras questões, tais como as atinentes à identidade, gênero e etnia, dentre outras.
O número 38 da Revista Soletras receberá submissões de artigos que explorem as relações entre espaço, tempo, diáspora e escritura em trânsito, nos diferentes contextos sócio-históricos, privilegiando os seguintes eixos:
• Identidade cultural e temporalidades múltiplas
• Literatura e o espaço monádico-nomádico
• Alteridade, construção identitária e deslocamentos
. Questões interseccionais: diáspora, gênero e etnia
. Releituras canônicas, identidade e diáspora
Prazo para submissão dos textos: de 15/09/2018 a 01/06/2019.
Previsão para publicação: setembro de 2019.
Diretrizes para autores:
http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/about/submissions#authorGuidelines
Endereço para submissão: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras
Solicitamos que os autores leiam atentamente as diretrizes antes de submeterem os artigos.
Referências
WESTPHAL, Bertrand. La Géocritique. Réel, fiction, espace. Paris, Editions de Minuit, 2007.
BHABHA, Homi. Il luogo della cultura. Trad. Antonio Perri. Roma: Meltemi, 2001.
HOFFMAN, Eva. The New Nomads. In: ACIMAN, André, ed. Letters of Transit: reflections on exile, identity, language, and loss. New York: The New York Press/ The New York Public Library, 1999.

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