Chamada para artigos SOLETRAS n. 38 2019.2

18 de março de 2019 / Comentários desativados em Chamada para artigos SOLETRAS n. 38 2019.2

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Dossiê
Poéticas em trânsito: espaços, deslocamentos e temporalidades múltiplas

A relação eu/outro constitui um amplo campo de investigação, seja na perspectiva da alteridade como diferença ou no âmbito das representações da diversidade. Contemporaneamente, as discussões sobre etnia, diáspora, e identidade cultural, além de propiciarem condições de enfrentamento das diferentes formas de opressão e exclusão, subalternidades e assimetrias sociais, acabam também por problematizar as representações do indivíduo, do espaço e do tempo na literatura.

Bertrand Westphal (2007), no ensaio La Géocritique. Réel, fiction, espace (2007), mostra que a tentativa de separar o real da ficção, enquanto espaço físico, é pura ficção uma vez que a produção de sentido é correlata às atividades da imaginação e representação estética. Hoje, o trabalho dos escritores em “trânsito” é de conectar as diferentes culturas e de criar uma continuidade entre os espaços que são atravessados, uma espécie de continuum entre exterior e interior (o espaço narrado e o espaço social vivido), como a dobra da fita de Möbius. É deste lugar de valor cultural híbrido e de dimensões temporais diversas, que eles elaboram seus projetos históricos e literários, demonstrando que a cultura como estratégia de sobrevivência é transnacional e traduzível. Transnacional porque, conforme Homi Bhabha (2001), os discursos pós-coloniais estavam enraizados nas histórias específicas do deslocamento cultural. Assim, o sujeito em diáspora cria uma forma de espaço “monádico-nomádico” que é um espaço topológico e não topográfico. Estar em movimento delineia também um espaço-limite, onde o interior e o exterior se invertem. Este espaço da torção, da dobra, e da nomadologia é também de tradução de uma língua, étnica e literariamente falando, que se torna um órgão móvel e nômade.

Nesse sentido, também vale evocar alguns pensamentos de Eva Hoffman (1999) em seu ensaio “The New Nomads”, quando ela afirma que embora o “exílio” possa ser tomado friamente como um conceito teórico, universal, não podemos desconsiderar uma rede complexa de prismas que subjazem a essa ideia, uma vez que as diferentes circunstâncias determinantes das migrações do indivíduo estão eivadas de implicações políticas, culturais e sociais que terão enormes impactos práticos e psicológicos na sua vida. Contudo, como essa questão é muito complexa, Hoffman afirma também que, pelo fato de a globalização estar determinando trocas e interações culturais com uma aceleração e dinamismo nunca antes vistos, as noções de exílio e terra natal (“home”) têm sido o foco constante das discussões teóricas contemporâneas. Uma consequência disso é que “nós sabemos que hoje vivemos em uma aldeia global, embora essa aldeia seja de fato virtual – uma aldeia dependente não de localização ou de raízes fincadas no solo, mas daquilo que os teóricos chamam de desterritorialização – ou seja, o afastamento do conhecimento, das ações, das informações e da identidade de algum lugar físico específico. Em suma, tornamo-nos menos ligados aos espaços e talvez também mais despegados da noção de tempo” (HOFFMAN, 1999, p. 44). Tanto o narrador em trânsito, como os protagonistas dessa poética da diversidade, ao transitar em novos ambientes, se traduzem no espaço no qual se deslocam e se desdobram. Contudo, Bhabha (2001) observa que o tema da diferença cultural e da etnia, ao habitar os interstícios e embora seja um elemento de resistência no processo de transformação social, também é um problema porque ocupa o espaço liminar da tradução, que muitas vezes não é em si traduzível.

Um dos nossos objetivos, portanto, é analisar as relações entre espaço e escritura, considerando as temporalidades diferentes e partindo do pressuposto de que não existe hoje uma linha evidente que separe os espaços imaginados e imateriais, presentes nas obras literárias de autores contemporâneos, sobretudo daqueles em trânsito, porque o espaço na literatura se abre a interrogações que transcendem a análise das relações topográficas. Trata-se, sobretudo, de uma narrativa que conecta o interno e o externo, e uma literatura “em trânsito” que traça linhas itinerantes, mas não indica seus confins, e que mantém relação com outras questões, tais como as atinentes à identidade, gênero e etnia, dentre outras.

O número 38 da Revista Soletras receberá submissões de artigos que explorem as relações entre espaço, tempo, diáspora e escritura em trânsito, nos diferentes contextos sócio-históricos, privilegiando os seguintes eixos:

· Identidade cultural e temporalidades múltiplas

· Literatura e o espaço monádico-nomádico

· Alteridade, construção identitária e deslocamentos

. Questões interseccionais: diáspora, gênero e etnia

. Releituras canônicas, identidade e diáspora

Prazo para submissão dos textos: de 15/09/2018 a 01/06/2019.

Previsão para publicação: setembro de 2019.

Diretrizes para autores:
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Endereço para submissão:
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Solicitamos que os autores leiam atentamente as diretrizes antes de submeterem os artigos.