Homenagem ao professor Modesto Carone Netto

29 de janeiro de 2020 / Comentários desativados em Homenagem ao professor Modesto Carone Netto

Destaques Notícias

A ANPOLL externa seu pesar pelo falecimento, no dia 16 de Dezembro de 2019, do prof. Dr. Modesto Carone Netto, professor aposentado do Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp, tendo lecionado também na USP e na Universidade de Viena. Poeta, tradutor e jornalista, venceu dois prêmios Jabuti e um prêmio APCA. Foi o primeiro no país a traduzir Kafka diretamente do alemão e seus estudos críticos influenciaram decisivamente a recepção brasileira da obra do escritor tcheco.

Gostaríamos de publicar aqui o depoimento da nossa vice-presidente, profa. Dra. Marisa Corrêa Silva.

Era um senhor discretamente elegante, de fala pausada, olhar intenso e gestos contidos. Ministrou para a minha turma de graduação no IEL uma disciplina sobre Kafka e, como favorecia as camisetas de algodão de cor preta ou cinza-escura, surgiu a brincadeira, entre os alunos, de que ele seria, de algum modo, uma criatura kafkiana: preferencialmente, o narrador de A metamorfose.

Aula a aula, o professor crescia em nosso conceito. Paciente com os alunos, cujo universo de leitura ainda era, na melhor das hipóteses, medíocre, ele não impunha Kafka como a cereja no topo do cânone, no estilo “é um gênio e vocês terão de engoli-lo”. Sua didática era mais indireta e persuasiva. Ele apresentava contos escolhidos (e não revelou que ele mesmo os traduziu até o dia em que lhe perguntamos diretamente), os quais líamos e, a seguir, vinham perguntas aparentemente simples. Por que as histórias causavam apreensão no leitor? Havia alguma coisa na linguagem que nos chamasse a atenção? Lentamente, fazia com que prestássemos atenção não mais nos acontecimentos e sim na linguagem que narrava os mesmos.

Mais adiante, tratou dos desafios de tradução e abordou diretamente o problema do registro. Foi ele quem nos fez perceber que não se pode traduzir Kafka num registro de linguagem que remeta a Lovecraft, por exemplo. Seus ensinamentos foram o ponto de partida para tudo o que depois compreendi sobre a literatura fantástica, a de terror e a linguagem cinematográfica. Uma colega comentou comigo que as aulas dele inspiraram os estudos posteriores dela na área de tradução. E certamente há muitos outros que podem testemunhar a longa teia de pensamento que teve nas aulas de Modesto Carone o empurrão inicial ou um contributo importantíssimo.

Lá pela metade do semestre, éramos todos kafkianos e alguém descobriu que o nosso professor também escrevia literatura. A partir daí, passamos a acompanhar os textos dele publicados em um jornal de grande circulação e uma edição de Aos Pés de Matilda circulou entre alguns dos colegas. Indagado, respondeu que um autor não deve discutir a própria obra. Mas, numa conversa de corredor com o colega e amigo Roberto Schwartz, abriu um sorriso quando o estudioso de Machado elogiou seus textos. Depois, ao perceber que havia alunos por perto, ficou visivelmente embaraçado. Pronto: a turma somou com a omissão da autoria das traduções, esqueceu o narrador d’A Metamorfose e passou a chama-lo de “Modesto, o Carone”. Apesar da timidez, seu senso de humor era afinado com as nossas molecagens e ele compreendia que as brincadeiras eram formas de afeto.

Muitos de seus ex-alunos e alunas estão na carreira acadêmica e levaram um baque ao receber a notícia de seu falecimento, no dia 16 de Dezembro de 2019. É como receber, ao mesmo tempo, um puxão de orelhas dolorido e um convite agridoce à memória. Carone, com sua discrição e sua erudição, foi um marco em nossas vidas. Seu legado se ramifica de forma direta e, mais ainda, indireta, ainda que nem sempre de forma visível. Mas é importante que se diga: ele vive naquilo que inspirou em nós e que tentamos passar aos nossos alunos que, por sua vez, tentarão passar aos deles. Muito obrigada, professor!