Revista Romanica Olomucensia

23 de março de 2021 / Comentários desativados em Revista Romanica Olomucensia

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Chamada para trabalhos (call for papers) – Revista Romanica Olomucensia (print ISSN 1803-4136; online ISSN 2571-0966)

Tema monográfico do número 33/2 de Romanica Olomucensia (2021): Textos e discursos subalternos e/ou subversivos nos domínios ibéricos da África, América e Ásia

O número 33/2 de Romanica Olomucensia será publicado no final de 2021. O prazo para a apresentação de originais é 1 de julho de 2021. No site da revista Romanica Olomucensia, encontram-se os critérios de edição (style guide). Os artigos, escritos em espanhol ou português, deverão ser carregados no site da revista (https://romanica.upol.cz ) para revisão cega por pares (double-blind reviewing). Editores do número monográfico: Enrique Rodrigues-Moura & Christina Märzhäuser. Perguntas sobre o número monográfico podem ser dirigidas a Enrique Rodrigues-Moura: enrique.rodrigues-moura@uni-bamberg.de

https://romanica.upol.cz/artkey/inf-990000-0600_Call-for-Papers.php

A expansão ibérica na África (Ceuta, 1415), na América (Caribe, 1492; Brasil, 1500) e na Ásia (Calecute, 1498; Guam, 1521) impôs um domínio político e uma evangelização forçada às populações locais. Por um lado, começou-se a exigir que os novos súditos se comportassem, no quadro de uma densa rede clientelar e familiar, como leais vassalos dos reis com corte em Lisboa e em Madri e, por outro, como fiéis cristãos obedientes à Igreja de Roma e à sua instituição mais repressiva, a Inquisição. O domínio político através da espada e da cruz e contra a tolerância religiosa e contrário à alteridade revelou-se muito eficaz até o início do século XIX, já no crepúsculo do Ancien Régime.

Os textos literários e os discursos culturais produzidos pelas elites letradas desses territórios, seja espanhola ou portuguesa ou pelos seus diretos descendentes, mantiveram uma estreita ligação com suas metrópoles de origem, enquanto se silenciavam as vozes híbridas do «outro». Os discursos autorizados e elogiados respondiam a um padrão retórico-poético e teológico-político de natureza classicista, herdado de uma longa viagem de Oriente para Ocidente (translatio studii). As vozes e as letras subalternas, subversivas e/ou de resistência foram obliteradas por trazerem perspectivas de gênero invulgares, por enfatizarem questões étnicas, por se expressarem em línguas ou dialetos não avalizados pela tradição, por darem uma carta de natureza a religiões ou cultos proibidos (judaísmo ou crípto-judaísmo, crenças de origem africana ou indígena, feitiçaria, etc. ) ou por promover exigências sociais incompatíveis com uma monarquia conformada como um corpo místico e político de vontades subordinadas ao rei num pacto de submissão.

As manifestações literárias e culturais dos tempos do domínio ibérico, tanto as subversivas, subalternas e de resistência, como as em comformidade com o cânone classicista, não foram facilmente incorporadas às Histórias das Literaturas dos países latino-americanos, as quais começaram a ser escritas com consciência nacional no século XIX. Muitos foram os textos e os discursos que foram relegados, tanto por razões geográficas, especialmente da perspectiva espanhola ou portuguesa, como por não se enquadrarem no discurso teleológico nacionalista e monolingue das jovens nações que surgiram nesses territórios já independentes de Madri ou Lisboa. Ademais, muitos desses textos do arquivo literário dos domínios ibéricos além-mar são pouco conhecidos ou até permanecem inéditos.

Esperam-se artigos sobre temas literários, linguísticos ou culturais que contribuam e discutam textos, discursos e práticas culturais subalternas, subversivas e/ou de resistência em relação aos centros de poder, quer porque foram ignorados na altura, quer porque não foram incorporados às subsequentes Histórias das Literaturas (e Culturas) nacionais ibero-americanas. Também são bem-vindos artigos que contribuam com novas visões de autores já consagrados pela tradição.

A título de exemplo, e sem pretender esgotar o repertório, estudos sobre autores satíricos como Juan del Valle y Caviedes ou Gregório de Matos e Guerra ou revisões de clássicos como Sor Juana Inés de la Cruz podem dar contributos valiosos para o conhecimento da extensão da subalternidade, subversão ou resistência nos domínios ibéricos. O glossário que regista a presença da(s) língua(s) Gbe em Minas Gerias escrito por António da Costa Peixoto, os Diálogos Makii do ex-escravo Francisco Alves de Souza ou as perspectivas historiográficas e narrativas de Bartolomé de las Casas, Felipe Guamán Poma de Ayala ou Fernando de Alva Ixtlilxóchitl merecem uma renovada atenção crítica. Além disso, a fracassada incorporação dos cristãos-novos à monarquia portuguesa não pode ignorar as muitas vozes que os apoiaram, incluindo as do Padre Vieira. É também de grande valor investigar a vida «secreta» dos cristãos-novos ou criptojudeus no Estado da Índia, ou em outros territórios onde a Inquisição portuguesa ou espanhola esteve activa. Também são de interesse as práticas religiosas e culturais heterodoxas relativas ao catolicismo nos domínios ibéricos de África, América e Ásia. Ao mesmo tempo, a frequente visão monolingue dos países latino-americanos relegou ao esquecimento tanto as línguas indígenas como as línguas crioulas, entre as quais se encontra o palenquero da Colômbia, tornando invisível o seu importante papel como forma de resistência cultural ao domínio ibérico. Outrossim, a circulação de livros e pessoas e a formação de bibliotecas privadas surpreendem-nos muitas vezes com a recepção de ideias pouco ortodoxas nos confins dos domínios ibéricos.

Assim, interessam estudos críticos sobre textos que espelhem identidades liminares e sobre práticas culturais dialógicas, transculturais, transfronteiriças, poliglotas e híbridas, que resgatem e interpretem textos e discursos subalternos, subversivos e/ou de resistência nos domínios ibéricos de África, América e Ásia.

 

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