
A dominação masculina inventou a fala feminina, porque sempre quis calar as mulheres. São vários os meios usados para silenciar suas falas. Eles vão de menosprezos pelo que elas dizem e pelo modo como falam, passam por violências físicas e simbólicas contra seus corpos e chegam até os feminicídios. Machismos e misoginias sempre tentaram a todo custo afastar as mulheres do espaço público. No entanto, caso elas consigam acessá-lo, eles procuram impedir suas manifestações. Se, mesmo assim, elas conseguem falar, eles então buscam interditar ou perturbar a escuta do que foi dito. Elas não podem ser ouvidas. Mas, se isso acontecer, suas falas serão desprezadas e deslegitimadas, interrompidas e sabotadas. Para tanto, a dominação masculina forjou uma antiga percepção sexista da fala pública, cujo destino será muito longo. Essa percepção opõe as supostas virtudes masculinas da coragem e da prudência, da franqueza e do interesse coletivo aos alegados vícios femininos da bajulação e da discórdia, da conveniência e da tagarelice. Por essa razão, as lutas pela palavra sempre foram batalhas decisivas para os movimentos feministas. A fala feminina retraça a história desse longo silenciamento da fala das mulheres, mas também a de sua obstinada resistência a esse ancestral e ainda atual “Cala a boca!”. Do mundo antigo ao Brasil contemporâneo, a fala feminina foi e ainda é concebida como sedução dos homens e perdição da humanidade. Mas seus silenciamentos não se abatem igualmente sobre todas as mulheres. Sociedades hegemonicamente injustas e desiguais, como a brasileira, criam meios de menosprezar, deslegitimar e calar tanto as demandas por sua transformação quanto os modos de expressão de classes, grupos e sujeitos que ela exclui. Esses silenciamentos se radicalizam diante de falas públicas que conjugam defesa de excluídas/os e formas estigmatizadas de expressão. Além disso, quanto maior potencial transformador houver nas coisas ditas e em seus modos de dizer, maiores e mais violentas serão as reações reacionárias. Foi justamente por isso que Marielle Franco, mulher negra, empobrecida, lésbica, “cria da favela” e cheia de coragem para falar o que fosse preciso em defesa de subalternizadas/os, teve de dizer e repetir: “Não serei interrompida!”. Por ser quem era, por fazer o que fazia e por dizer o que dizia, Marielle foi brutalmente assassinada. Homens poderosos tentaram calar sua voz. Não conseguiram. Desde sua morte, não paramos mais de dizer e de ouvir: “Marielle vive!”, “Marielle presente!”. Como uma espécie de profecia performativa, sua filha recentemente ainda acrescentou: “Sua voz nunca será silenciada!”. Leitoras e leitores encontrarão aqui esse e outros silenciamentos, assim como essa e outras resistências da fala feminina. Conhecer as tentativas da dominação masculina de calar as mulheres e de reprimir as lutas feministas pela escuta legítima de suas palavras é um passo decisivo para a desconstrução de uma das mais primárias e mais opressoras relações de poder.
