Prorrogação de chamada para publicação: No entre-lugar, o capitalismo realmente existente

15 de abril de 2022 / Comentários desativados em Prorrogação de chamada para publicação: No entre-lugar, o capitalismo realmente existente

Chamadas

Errare humanum est correspondente ao primeiro semestre de 2022, agora com prazo para envio de trabalhos até o dia 24 de abril de 2022.  

Para maiores detalhes: https://revistalanda.ufsc.br/chamadas2/

No entre-lugar, o capitalismo realmente existente

Em artigo de 1986, assim como em Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism (1991), Fredric Jameson elaborava uma distinção entre as literaturas primeiro e terceiromundistas, que se processaria por díspares níveis de consciência em relação com a própria situação no sistema-mundo. Desse modo, enquanto a lógica do imperialismo cultural produziria uma visão epistemologicamente viciada, que reduziria seus objetos às ilusões de uma multidão de subjetividades fragmentadas, a cultura do chamado “terceiro mundo” tenderia a um materialismo que frequentemente produziria alegorias sociais como uma maneira de cartografar a própria situação no quadro da totalidade que denominamos capitalismo.

Sem dúvida, essa diferença deve seus pressupostos à dialética do amo e do escravo, que Hegel, Marx, e depois Lukács, elaboraram, que tem como pressuposto fundamental a ideia de que é privilégio epistemológico dos dominados compreender sua própria situação. O amo está petrificado, mas o escravo não o está em absoluto. Enquanto o primeiro precisa de uma prolongação das condições existentes para preservar o seu privilégio, o segundo sabe da necessidade de modificação dessas condições na sua luta por reconhecimento.

Silvia Rivera Cusicanqui e José Carlos Mariátegui, talvez questionando alguns dos termos de Jameson, e certamente evidenciando a imensa heterogeneidade que cabe no que ele chama de “terceiro mundo”, partilhariam entretanto a ideia de um privilégio materialista dos dominados, e a tendência de um pensamento, situado ao sul da geopolítica do conhecimento, a se posicionar, não somente em prol do reconhecimento, mas também no agir e escrever contra as condições existentes.

Na sua quarta fase, o capitalismo se apresenta do mesmo modo que esses enormes prédios de fachadas espelhadas que se tornaram o estilo arquitetônico preferencial das instituições financeiras: sem profundidade, dá ao usuário aquilo que o usuário demanda, em forma de imagem. O imperialismo cultural, que muito avançou desde os tempos do artigo de Jameson, e também via teoria, nos devolve o que sobre ele projetamos: na passagem do século XX ao século XXI, nos levou a uma crítica da sociedade disciplinar que acabou dando insumos à sociedade de controle; a um abstrato anti-estatalismo que confluiu com os interesses neo-liberais; a um abandono da hipótese socialista que deplorou o “socialismo realmente existente” sem combater o capitalismo realmente existente; a uma crítica do conhecimento que inclusive na sua inflexão biopolítica pode estar hoje tendendo aos mais abstrusos negacionismos; a uma crítica do antropoceno que acalenta o discurso de um capitalismo protecionista do meio ambiente.

Hoje, que as condições impostas pela pandemia se somam à tabula rasa neoliberal, sabemos que não há sobrevivência sem política, que não há saúde sem cuidado, que o capital privado não existe para nos cuidar, que o estado –entendido como um espaço poroso, heterogêneo e contingente–  é um dispositivo que podemos, e devemos, reapropriar.

Podemos, portanto, afirmar que estamos em situação de Double bind, capturados entre imperativos conflitantes que não podemos nem ignorar nem simplesmente satisfazer. Habitando a contradição, a contemporaneidade regional, pelo lado micro, nos empurra à derrota de nos pensarmos apenas como sobreviventes, ou reexistentes, sem possibilidades de luta; por outro, pelo lado macro, nos leva à criação de grandes mapas que, coincidindo em magnitude com o mapa do império, também tendem a mimetizar sua ruína.

Entre a cartografia cognitiva e a alienação subjetivista, haverá uma alternativa para o entre-lugar? Existirá essa alternativa agora que nos perguntamos se combatendo entre nós o fantasma do outro, não teremos deixado de ouvir os nossos próprios espectros? Não teremos nos resignado a esse cinismo das democracias formais? América Latina não terá sido tomada por isso que Mark Fisher denominava realismo capitalista? O entre-lugar, não terá se tornado um lugar confortável? Há literaturas e artes que, na América Latina da passagem do século XX ao XXI, tenham elaborado e confrontado o capitalismo realmente existente? De que maneiras isso aconteceu e acontece?

É a partir dessas perguntas que a revista Landa abre sua chamada para trabalhos que abordem essa passagem entre realismo e real. Convidamos os interessados e interessadas a pensar essa passagem nas artes e nas literaturas das Américas e de suas sombras.

Trabalhos que não respeitem as normas editoriais não serão aceitos. As normas podem ser consultadas em: http://www.revistalanda.ufsc.br/normas.html

Os originais deverão ser enviados por correio eletrônico ao endereço: revistalanda@gmail.com

Prazo para envio dos trabalhos: 24 de abril de 2022